Peça Marcada

By shimarts

Seria mais uma noite de espetáculo, uma noite como todas as outras, se eu estivesse ali.
Eu era o melhor ator daquela época, o que tinha acumulado prêmios, reconhecimento, personagens. Eu tinha tudo, eu tive tudo, tudo o que desejei, menos você.
Você, meu par, meu complemento, com quem eu contracenei e contracenava em todas as peças da companhia, era sempre contigo que eu subia soprando vida aos romances, aos dramas, às histórias. Usávamos à exaustão emoções nossas que só nós atores somos capazes de sentir.
Todas as noites em que eu subia ao palco eu tinha a certeza de que teria você mais uma vez, vivendo meu amor, nosso amor, em frente a todas as platéias. Eu não conseguia te ver diferente do que estava no script, dentro e fora do espetáculo. Você era o par perfeito que eu pedi a Deus.

(pausa, silêncio)

No palco, você era a princesa, a mulher, a apaixonada, a rainha, e eu sempre o seu par perfeito. E eu era o seu homem, seu amante, seu apaixonado, seu príncipe, seu, todo seu. Por que não teria de ser assim nos bastidores, no café-da-manhã, no boanoite, na rotina da turnê?
Mas hoje seria diferente. Bem diferente. Totalmente diferente.
Você me aguardaria em sua marca, como sempre apaixonada, lindamente maquiada, impecavelmente vestida e penteada, com a falsidade que só nós atores sabemos ter, com o coração aberto, o sentimento em flor, com todo o seu amor, que só o papel poderia exigir.

(rufar de tambores)

Com o rufar dos tambores, em nossa tragédia teatral, você me aguardava em sua posição, esperando-me entrar em minha marca, no “x” de fita crepe pisado no chão de madeira, nosso cenário de plástico e papelão, meu mundo perfeito onde teria você como sempre, os refletores se acendendo do blackout apontando para ti e para o meu espaço, para o grand-finale, onde eu me mataria como em todas as noites com um tiro na cabeça e você como em todas as noites choraria desesperadamente e tomaria seu veneno.
Mas eu não apareci, os tambores pareciam suspender a ti e a platéia, você fazendo uma expressão que eu nunca havia visto nem em ensaio, entre a agonia e o desespero, num silêncio vertiginoso, numa cena infinita. O rufar dos tambores parecia não ter fim. Eu não poderia comparecer à minha marca, eu não podia mais voltar atrás, eu já não estava mais ali.

A banda teve que improvisar um outro final, você e seu vidro de veneno me procuravam desesperadamente no palco, na coxia e na platéia, mas eu não poderia voltar atrás, muito menos amar você, até que então as cortinas finalmente fecharam-se, separando a arte da vida, encerrando sua noite e minha última apresentação.

(Música proposital: “Dark Hills, by P:ano”)

Uma resposta para “Peça Marcada”

  1. Raul Kawamura Disse:

    Shima, casamento impecável entre texto e som, parabéns!!

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