15 15UTC Setembro 15UTC 2009 por shimarts

Hoje parece que eu acordei com saudade
palavra triste dos meus queridos amigos
olhando cicatriz lembrando ferro de boi
ardendo em memória…

Resistência

27 27UTC Agosto 27UTC 2009 por shimarts

Quando a gente deita
parte de mim
persiste de pé.

Doce

19 19UTC Agosto 19UTC 2009 por shimarts

Quase sinto você puxar meus cabelos,
quando misturo caramelos e lembranças,
que dançam na mínha língua, em lambança.

Dentes grudados em saliva melados de ti.

A Partida

16 16UTC Julho 16UTC 2009 por shimarts

(Clique na seta para começar a música)

Ela corria com todas as forças, empurrada pelo ódio e pela repulsa que sentia de si mesma.

(aguarde a cantora iniciar a música)

Tinha sido enganada, mas sabia que ser enganada também era parte do acordo. E agora, este acordo havia terminado, e ela, fugindo de si própria, sentia as pernas falhando, a garganta arranhando seca, a roupa do corpo enxarcada de suor. Sabia que estava próxima do fim. Correu até encontrar na estrada os trilhos do trem que saíam de sua cidade para qualquer outro lugar no mundo. Exausta, ergueu a cabeça, e ofegante, tirou o cabelo que cobria parte de seu rosto vermelho, olhou para o céu sem luar e ouviu lá longe, o barulho do trem que se aproximava. Sorriu, aliviada, sabendo exatamente o que fazer. E este era o início de um novo acordo.

(Música proposital: “Metal Heart – Cat Power”)

Peça Marcada

16 16UTC Julho 16UTC 2009 por shimarts

Seria mais uma noite de espetáculo, uma noite como todas as outras, se eu estivesse ali.
Eu era o melhor ator daquela época, o que tinha acumulado prêmios, reconhecimento, personagens. Eu tinha tudo, eu tive tudo, tudo o que desejei, menos você.
Você, meu par, meu complemento, com quem eu contracenei e contracenava em todas as peças da companhia, era sempre contigo que eu subia soprando vida aos romances, aos dramas, às histórias. Usávamos à exaustão emoções nossas que só nós atores somos capazes de sentir.
Todas as noites em que eu subia ao palco eu tinha a certeza de que teria você mais uma vez, vivendo meu amor, nosso amor, em frente a todas as platéias. Eu não conseguia te ver diferente do que estava no script, dentro e fora do espetáculo. Você era o par perfeito que eu pedi a Deus.

(pausa, silêncio)

No palco, você era a princesa, a mulher, a apaixonada, a rainha, e eu sempre o seu par perfeito. E eu era o seu homem, seu amante, seu apaixonado, seu príncipe, seu, todo seu. Por que não teria de ser assim nos bastidores, no café-da-manhã, no boanoite, na rotina da turnê?
Mas hoje seria diferente. Bem diferente. Totalmente diferente.
Você me aguardaria em sua marca, como sempre apaixonada, lindamente maquiada, impecavelmente vestida e penteada, com a falsidade que só nós atores sabemos ter, com o coração aberto, o sentimento em flor, com todo o seu amor, que só o papel poderia exigir.

(rufar de tambores)

Com o rufar dos tambores, em nossa tragédia teatral, você me aguardava em sua posição, esperando-me entrar em minha marca, no “x” de fita crepe pisado no chão de madeira, nosso cenário de plástico e papelão, meu mundo perfeito onde teria você como sempre, os refletores se acendendo do blackout apontando para ti e para o meu espaço, para o grand-finale, onde eu me mataria como em todas as noites com um tiro na cabeça e você como em todas as noites choraria desesperadamente e tomaria seu veneno.
Mas eu não apareci, os tambores pareciam suspender a ti e a platéia, você fazendo uma expressão que eu nunca havia visto nem em ensaio, entre a agonia e o desespero, num silêncio vertiginoso, numa cena infinita. O rufar dos tambores parecia não ter fim. Eu não poderia comparecer à minha marca, eu não podia mais voltar atrás, eu já não estava mais ali.

A banda teve que improvisar um outro final, você e seu vidro de veneno me procuravam desesperadamente no palco, na coxia e na platéia, mas eu não poderia voltar atrás, muito menos amar você, até que então as cortinas finalmente fecharam-se, separando a arte da vida, encerrando sua noite e minha última apresentação.

(Música proposital: “Dark Hills, by P:ano”)

Com trato

5 05UTC Julho 05UTC 2009 por shimarts

Quero roubar você só pra mim,
te trancar aqui dentro comigo,
e te deixar sair só quando você quiser.
Trato?

Não é?

5 05UTC Junho 05UTC 2009 por shimarts

Com a fé
e café, 
tudo dá pé.

Sopa

4 04UTC Maio 04UTC 2009 por shimarts

Mordo palavras
babando diálogos
no colher das letrinhas.

Virada

4 04UTC Maio 04UTC 2009 por shimarts

Que dia perfeito,
uma tarde de chuva,
você no meu peito.

2-1

30 30UTC Abril 30UTC 2009 por shimarts

A minha união com a tua partida, 
a ausência presente da despedida.
É a vida de novo dividida.